quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Envelhecer dói


Sempre me comovo ao deparar com uma pessoa idosa, olho para mim e me imagino em seu lugar. Com o olhar abatido, as mãos enrugadas, o corpo cansado, a impaciência do demais para comigo, a falta de respeito, a falta do olhar desejoso que despertamos nos outros quando jovens.
Vendo a senhora de setenta anos que vende cocadas e balas de côco no terminal, seus braços frágeis segurando aquela sesta, o dia inteiro em pé, debaixo do sol, oferecendo seu produto enquanto passa despercebida em meio à multidão, como se fosse um nada.
Parei para comprar seu doce, não porque gostava, mas porque ela precisava. Olhei em seus olhos, eram azuis, cheios de tristeza e solidão, um abatimento tão profundo que, por um instante, até achei belo. Fui embora com essa visão.
E por todos os cantos que passe por aquele dia, parei para observar os idosos que me rodeavam. Nunca havia percebido que eram tantos. Sempre sozinhos, sempre passando despercebidos, como sombras.
Meu ônibus chegou e uma multidão de gente se juntou a sua porta, empurrando, machucando. Ao meu lado uma senhora que julguei ter uns sessenta anos, sendo empurrada, assim como eu também estava sendo, porém imaginei colo aquilo era para ela, suas pernas que já não aguentavam tanto, seu corpo franzino... Coloquei-a na minha frente passei o braço em volta do seu corpo e a ajudei.
Pedi a uma garota que estava no banco reservado para que cedesse o lugar a senhora, e esta com muita raiva me respondeu “Estou cansada!”, cansada? Procurei ser um pouco mais ignorante, até que consegui fazer a proeza de fazê-la dar seu lugar a senhora.
Sei que muitos falarão: “Nossa, que boa moça”. Não, não me considero uma boa pessoa. Apenas acho que não vou querer passar por isso.
Não quero passar minha velhice trabalhando, por  não ter condições para me sustentar. Não quero passar pela situação de saber que tenho direito de me sentar em um lugar reservado para pessoas como eu e ter uma... (não darei nomes a um ser desse) ocupando o meu lugar. Não quero ver meu entes queridos morrer, não quero passar despercebida, não quero ter que aturar a falta de atenção, respeito, amor.
O tempo passa e nos toma tudo o que mais damos valor, e leva como o vento leva a poeira que está no chão. 

quarta-feira, 15 de agosto de 2012

Olhe nos meus olhos



Ainda sou eu olhando pro céu, buscando as respostas nas estrelas. Ainda sou eu, mesmo com olhar mais triste, mais envelhecida, mais quieta.
Tenho o mesmo olhar perdido, mesmo nestes olhos contendo mais lágrimas de marcas deixadas no passado, porém nunca superadas.
Sei que ainda me procura nestes olhos e não vê mais respostas, mas elas estão lá, apenas você não as vê.
Cresci não querendo crescer, queria me manter criança para você nunca ter esquecido o meu olhar.
Só queria ter mantido a inocência que eles mereciam ter, mas o tempo é ingrato, ele me tirou a inocência, as alegrias com coisas simples, as questões sempre respondidas.
Sei que sou apenas mais um olhar perdido no mundo, mas sou muito mais perdida no meu mundo, que parece ser maior que o mundo de todos.
No meu mundo já não há tantas cores, mas ainda há esperança de fazer iluminar estes olhos que lhe parecem tão tristes.

quarta-feira, 8 de agosto de 2012

Eu tenho o direito de errar

Muitas vezes eu quis agradar a todos, deixei de ser eu mesmo, deixei o que pensava de lado. Fui desprezada, julgada, ofendida tentando apenas ser o que queriam que eu fosse.
É fácil julgar, pedir para que eu sempre diga sim. É fácil querer que eu seja você, mas por que não posso ser apenas eu?
Sei que não sou a melhor pessoa do mundo, sei que vou errar, mas me deixe errar, me deixe chorar por meus erros, pois choro sempre pelas tentativas que não tive.
Sei que não sou o que você quer, mas sou alguém, sou eu!
Deixe-me errar mundo!

quinta-feira, 14 de junho de 2012

Assassina


Era uma noite chuvosa quando Verônica desceu do ônibus, por volta de 23h30min. As ruas estavam vazias e o caminho até sua casa ainda era um pouco longo.
Caminhava distraída quando sentiu algo estranho, uma sensação de que alguém estava a seguindo. Ela olhou discretamente para trás e viu uma sombra, que parecia ser de um homem, então Verônica andou mais rápido.
Cada vez que ela andava mais rápido, o homem andava também. Ela olhava para os lados, já desesperada, mas não havia mais ninguém além dos dois. A chuva não cessava e ela podia ouvir os passos daquele homem pelo chão.
Verônica avistou o viaduto, e decidiu passar por ele, pois assim algum motorista poderia ver seu desespero. O homem ainda a seguia, os carros passavam por eles, mas ninguém pode perceber o desespero da moça.
Neste momento ela já estava correndo, pensando nas terríveis coisas que poderiam lhe acontecer, temia ser morta, ou pior se fosse estuprada...
De repente, já quase ser forças ela parou, (seja o que Deus quiser). O homem se aproximou, ela não olhou em seu rosto, podia sentir sua respiração ofegante, as mãos dele percorreu seus braços.
Quando achava que estava tudo perdido, ela o viu vulnerável e num impulso o empurrou de cima do viaduto, o corpo do homem acertou o chão, fazendo um tremendo estrondo.
Desesperada, Verônica se aproximou do parapeito e olhou para baixo. O corpo estava totalmente ensanguentado, caíra voltado para cima, só então ela pode ver o rosto daquele homem.
Ele aparentava ter uns trinta anos, era moreno, mas o que mais a espantava eram os olhos negros, olhos que a encaravam, que a acusavam, que diziam: “Assassina! Assassina! Assassina!”.
Ela ficou parada, ainda sem acreditar. Como pode, uma garota tão simples, tão comum, cometer um crime desses? Ela, que até a pouco estava com medo de morrer, acaba causando a morte de outra pessoa.
Saiu correndo, chegou a casa, e foi tomar um banho. Esfregava seu corpo como se precisasse se livrar do cheiro da morte. Sua mãe, estranhando as atitudes da filha, foi interrogá-la.
Chorando, ainda de toalha agachada ao lado da cama, Verônica olhou nos olhos de sua mãe e disse: “Sou uma assassina!”. Ela não entendeu, mas a garota contou o ocorrido.
Sua mãe ficou horrorizada, mas não poderia entregar sua filha, então disse: “Filha, ele se jogou, pra quem perguntar, diga isso”.
No outro dia não pode sair de casa, sentia o homem a seguindo por todos os lados, via seu vulto em cada cômodo da casa. Todos os dias desde então. Todas as noites quando apagava as luzes podia sentir sua respiração ofegante.
Ele estava em seus sonhos, ela o via ali caído, olhos negros a fitando e uma voz sussurrando “Assassina... Assassina... Assassina!”.

segunda-feira, 21 de maio de 2012

Por que escrevo?


Escrevo por que escrever me deixa mais feliz, mais mulher, mais humana.

Escrevo por que as letras são meu calmante para as noites de angustia e insônia.

Escrevo para acalmar meu coração nos dias de paixão que não o tenho ao meu lado.

Escrevo, pois meus textos são como um lenço que enxuga minhas lagrimas.

Escrevo para saciar minhas vontades, meus sonhos, mostrar o meu mundo.

Cada letra é um misturado de suor lágrimas e excitação.

Escrevo por que as palavras brotam de meus poros como algo que precisa se libertar.

Escrevo para ser um pouco mais do mundo, e fazer do mundo um lugar um pouco mais meu.

terça-feira, 15 de maio de 2012

Marias que choram


Maria começou a vida cedo, vinda de pais que já não se amavam mais, de erros dos outros.  

Começou a fumar com onze, e com onze largou a escola, preferiu trabalhar. 

Com quatorze, depois de muita tristeza conheceu o que seria a solução de seus problemas. 

Engravidou aos quinze anos, e aos quinze anos sentiu a dor de ver um filho morrer (ela era prematura). 

Com dezesseis engravidou novamente, era um menino, seu marido a deixou sozinha e foi comemorar com os amigos. (ela não era digna de poder comemorar). 

Enquanto via seu filho chorar, chorava junto a solidão por ver seu marido trocando o lar por uma garrafa de pinga. 

Com vinte já tinha visto sua mãe ser abandonada por outra família, mas seu pai voltou. Ela experimentou o gosto de perdoar quem amava. 

Ainda aos vinte anos quase viveu a primeira viuvez, e pela primeira vez olhou para o céu e pediu por alguém que havia a feito chorar. (Deus ouve palavras sinceras)

Aos vinte e quatro anos engravidou novamente, dessa vez por opção, uma menina, a menina que tanto queria.

As coisas não mudaram de imediato, e conforme o combinado daria a criança o nome da santa que a ouviu.

Novamente se viu sozinha, o marido comemorou o outro nascimento junto à garrafa.

Por diversas vezes chorou encima do prato vazio, a falta de dinheiro, a solidão que o marido a deixava.

O marido parou de beber ela já tinha mais de trinta, mas ficou novamente desempregado, dessa vez por muito tempo, tempo demais, e ela carregou sozinha a casa nas costas.

No natal, ainda depois dos trinta anos, experimentou pela primeira vez a miséria de não ter o que dar para seus filhos comerem na noite de natal, mas como todo mundo que é bom, tem um anjo. Esse anjo veio em forma de cunhado, que lhe deu o que comer para o mês inteiro. (foi o melhor presente que alguém poderia ter dado).

Seus filhos cresciam, e ela ficou sem seu pai, a dor foi insuperável. (não só pra ela)

Após os quarenta viu outro de sua família cair no vício maldito, dessa vez a dor foi grande, seu primogênito. (parecia estar condenada a essa maldição)

Por mais que ele dissesse que não faria novamente isso se repetia, ela batia, chorava, conversava, mas de nada adiantou.

Aos quarenta e seis foi avó pela primeira vez, embora seu filho não tenha escolhido uma boa mãe para sua neta, ela era imensamente grata, a pequena trouxe novas esperanças.

Viu sua filha se formar, experimentar seu primeiro vestido de noiva (a filha realizou o sonho da mãe).

Mas ainda sofria pelo filho que não tomara jeito. Ela ainda chora por ele, pelo que não conseguiu, pelo que não realizou.

Só queria enxugar as lágrimas dessa Maria.



Essa é só a história de uma das várias Marias que choraram.

sábado, 12 de maio de 2012

Mais um mundo de cinzas



Era mais uma mulher perdida de desejo, uma adolescente sem regras, uma menina cheia de sonhos a olhar para o céu estrelado.

Cheia de duvidas e certezas não entendidas.

Só queria um bom motivo para acordar no dia seguinte. Talvez encontrar o rosto da pessoa amada, receber o abraço do filho, tomar o café preparado pela mãe, mas os motivos não existiam.

O que existia era um quarto vazio de calor humano, apenas com seus moveis frios que a puxava para o mundo de sua realidade.

Pelas ruas procura por um sorriso, por um céu um pouco mais azul, mas seu mundo era cinza e como cinzas ela passava pela vida das pessoas.

Ela entrava no ônibus, olhava em sua volta e via todos presos em seus mundos com seus celulares, livros, sonos, ocupados demais para reparar em seus olhos tristes e cabisbaixos.

Já não entendia por que existia, qual era a diferença do mundo sem sua existência, afinal não era digna nem mesmo de um sorriso.

A cada dia isso a corroía mais, até o momento em que se trancou em seu mundo, já não esperava mais por nada, já não olhava a sua volta, não fazia mais questão.

Mergulhada em seu mundo de nada, não reparou que alguém a olhava, esperando um sorriso seu, um outro mundo de cinza, procurando cores no próximo para ter um motivo para se levantar por mais um dia.

quarta-feira, 2 de maio de 2012

O dia em que eu morri


Sexta-feira à tarde, eu estava empolgado para viajar, mais empolgado que de costume. Sentia um frio no estômago, uma ansiedade sem tamanho, algo, certamente, estava para acontecer.

Entrei no carro com meu pai e meus primos, sentei-me no banco traseiro. Estávamos eufóricos, chovia muito naquele dia, mas isso nunca me assustou.

O caminho era considerado perigoso, mas passei por tantas vezes por ali, jamais pensei que aquele seria o último caminho que eu iria fazer.

Um carro prato fez uma ultrapassagem perigosa, e, com aquela chuva, o motorista perdeu o controle e nos acertou em cheio.

Vi o carro rodar, não entendi muito bem o que estava acontecendo, quando finalmente o carro parou. Ele parou de cabeça para baixo, senti uma dor sem tamanho, mas não sabia ao certo onde era.

Passei a pensar na minha vida (eu não posso partir!), tenho tantos planos ainda, tantas coisas, tantos abraços que posso dar... tantos beijos... Eu não lembro a ultima coisa que disse a minha mãe antes de partir, só queria dizer a todos um ultimo “Eu te amo”.

Agora a dor aumentou, já não consigo pensar com clareza, lembrei-me dos filhos que não cheguei a ter, pensei na minha esposa com quem não cheguei a me casar, me preocupei em chegar atrasado ao trabalho que eu não havia conseguido...

A dor chega a ser quase insuportável ao ponto de parar de pensar em tudo isso, pensei apenas no momento em que a dor iria parar.

Senti algo escorrendo pelo meu rosto, era sangue, olhei pelo retrovisor do carro, fiquei desesperado... Aquele sangue era meu! Olhei para meu pai, e naquele momento pude escutá-lo, ele gritava o meu nome e eu quase sem forças respondi “-Oi, pai...”.

Uma pessoa agarrou a minha mão, e escutei-a fazendo algumas orações, aquilo me acalmou, mas a dor apenas aumentava, ouvi as sirenes (finalmente, os médicos chegaram agora a dor vai acabar).

A mulher continuava orando e naquele momento eu me perguntava “-Por que Deus?” “- Eu ainda não quero ir”, de repente soltei a minha ultima palavra “Jesus”.

A dor foi passando, nesse momento quase não sentia nada, escutava tudo tão longe, começou a escurecer tudo, agora já não sentia mais dor (Deus, finalmente, me escutou).

Fechei os olhos e sonhei com o céu. Estava em casa

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Já tomei vinho para afogar um amor

Muitas vezes damos nosso coração a quem não sabe o que fazer com ele, não sei dizer se é um erro da pessoa que esta recebendo esse coração, ou se o erro é de quem entrega seu coração sem ter uma certeza de felicidade.

Já entreguei o meu a um idiota, claro que é um idiota (eu não falaria bem de quem me quis mal). Seu nome é o de menos, na verdade eu prefiro não mencionar, pois cada vez que eu mencionava eu me machucava, então vamos deixar assim? Vou chama-lo apenas de idiota.

Entre minhas diversas declarações, um dia finalmente ele tomou coragem e disse “Não quero mais”. Na época eu não entendia, mas hoje vejo que foi a melhor coisa que ele fez por mim. Afinal, ficar com essa ilusão apenas me machucaria mais.

Depois de muito chorar, sofrer, me perguntar “por quê?” dezenas de vezes, eu decidi seguir o conselho de uma pessoa sábia (minha mãe). Segundo ela nada melhor para esquecer um amor que um bom porre de vinho. (Ela deve ter feito o teste, mas nunca comentaria coisa do tipo).

Fui a uma balada com alguns amigos e bebi, nem sei o quanto, na verdade a cada gole eu ouvia o “não” do idiota, então eu bebia mais. Não tinha noção do quanto até ter que me levantar.

O chão rodava, eu não conseguia parar de rir, nem sei como cheguei a minha casa... (o restante é puro papo de bêbado)

No outro dia eu tinha que colocar pra fora todo aquele vinho, e com ele o amor que eu sentia (amor ou ódio, não sei ao certo), sim incrível, foi como tirar com a mão!

Até hoje não sei se o vinho que foi muito bom para esquecer o amor, ou meu amor que não era bom o bastante para superar um porre de vinho.

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Quase...


Creio que o “quase” é a palavra que define a minha vida (acho que de muitas outras pessoas também).
O “quase” chega a ser pior que o “não”, o não é uma certeza, ele não faz com que você crie falsas esperanças, sonhos, metas... Ele já é definido, mas o quase...
Essa é palavra é o abismo que te distancia e ao mesmo tempo te aproxima das coisas que você quer.
Há quem quase ficou rico, quem quase se casou, quase morreu, quase foi feliz... Mas apenas quase...
Eu quase milhares de coisas, coisas que seriam impossíveis de serem inumeradas.
Embora não seja um verbo eu classifico o “quase” como um pretérito imperfeito, aquela situação passada que poderia ter acontecido, mas não aconteceu, isso é o quase.
Não entendo o porquê não substituímos logo o quase pelo “não”? Esperança? Sim, esperança, essa palavra que ainda faz com que sonhemos, mas ai aparece o “quase” e estraga tudo...

E você continua tentando, com o sonho que um dia esse “quase” se torne um “sim”. “Quase” nunca será “sim”, não se iluda! “Quase” é sempre “quase”.

sexta-feira, 6 de abril de 2012

O velho e o tempo


Em uma dessas tardes onde o cigarro é a única companhia, entre um trago e outro me deparei com uma imagem que me prendeu a atenção.

A imagem era a de um senhor idoso na praça onde eu estava. Uma imagem que para muitos, até então, não chame tanto a atenção. Mas eu não consegui desviar o olhar dele.

Ele se sentou com uma sacola plástica na mão, dentro dessa sacola havia alguns grãos que eu na conseguia definir exatamente o que era.

Com o olhar perdido no alto das árvores com suas mãos enrugadas pelo tempo agarrava e despejava os grãos pelo chão. Ele olhava as arvores como quem esperava uma resposta divina.

O velho tinha um olhar inocente, porém traços de tristeza e solidão que o tempo havia deixado como marcas em seu rosto já bem cansado.

E todo esse tempo ele não percebeu que eu o fitava com os olhos, mas admito que em alguns momentos eu desviava o meu olhar, para não incomodar aquele momento, para que ele não sentisse a minha presença.

A solidão daquele homem me atormentava . Imaginei-me em seu lugar, com suas dores, cheguei a sentir o ar da morte batendo em meus cabelos.

Naquele momento comecei a pensar em diversas denominações para aquele tempo ingrato que tirou o brilho e a juventude daquele homem.

Entre as denominações, imaginei que o tempo poderia ser uma criança levada, que vem, brinca e depois se vai sem ao menos se despedir. Mas senti que essa não era a explicação certa.

Ainda com o olhar perdido nas atitudes do homem continuei imaginando o que seria o tempo. Cheguei em outra explicação.

Agora o tempo seria uma vadia barata que enlouquece e cega o homem e depois se vai deixando apenas os sonhos não alcançados, a tristeza e as lembranças boas de se vão junto com ele. Ainda não estava convencida com as minhas explicações.

Enquanto continuava com a insistente explicação, vejo que o senhor se levanta, sacode sua roupa, para se livrar da sujeira do assento, arrumou a sacola e, ainda sem  perceber o meu olhar, foi andando até se perder no horizonte.

Nesse momento eu soube a verdadeira descrição para o tempo. O tempo era aquele senhor. Que vem, você vive intensamente, ele te deixa com dúvidas, tristezas e depois se perde no horizonte nos deixando apenas a solidão.


CCCG

quarta-feira, 4 de abril de 2012

Discos na estante


           Pessoas inesquecíveis nos marcam para o resto da existência como uma tatuagem na pele.
Os melhores dias da minha vida foram durante a minha infância, que foi marcada por uma pessoa assim, mas, infelizmente, pessoas boas se vão cedo (acho que Deus escolhe sempre os melhores).
          Um dos meus momentos mais incríveis foi aos sete anos, quando eu e meu avô ficamos juntos na porta da escola. Ele dizia que veríamos um acontecimento magnífico que acontece a cada cinquenta anos: o eclipse total do Sol. Sinceramente, o que foi mais lindo não foi o eclipse, mas a pessoa que estava ao meu lado.
         Lembro que eu subia em seus pés e nós bailávamos na casa enquanto Johnny Rivers repetia a pergunta “Do you wanna dance?”. O mundo era todo nosso.  
Ele era o rei do meu castelo, o herói que sempre me salvava, o sábio filósofo que me ensinava sobre a vida. 
             Tenho saudade daquele olhar de bravo que me intimidava quando eu fazia algo errado (ele nunca precisou dizer nada). De quando eu não precisava fazer nada e ser notada. Só queria ter tudo outra vez, seria tudo tão diferente...
           Ele poderia ter enxugado mais lágrimas, ter evitado mais tombos, velado mais sonos, ter brigado mais por mim e dizer que estou certa mesmo estando errada, ter me repreendido mais...
           Perdê-lo foi uma das maiores dores da minha vida, mas as feridas se tornaram apenas cicatrizes, lembranças de um tempo em que os monstros entravam embaixo da minha cama.
            Minha infância estava nele. Hoje restam apenas os discos que ele deixou na estante — e uma saudade sem tamanho.

             “Faz um tempo eu quis, fazer uma canção pra você viver mais” (Canção Pra Você Viver Mais – Pato Fu)

segunda-feira, 26 de março de 2012

Venha ver o nascer do Sol


Sexta-feira à noite, tantos planos, muita correria até que a loucura do cotidiano chega no seu fim. Nada me tira da cabeça... eu preciso ver o mar.

Ligo pro meu amado, conto da minha idéia e o convido a pegar a serra e ver o nascer do Sol. Ele me chama de louca, mas aceita.

Levando apenas uma garrafa de água e algumas peças de roupas, seguimos os nossos caminhos. A viagem é longa até a praia ideal.

Ao chegar no local, ainda durante a noite, deitamos na areia, de fundo apenas o som das ondas, o cheiro da maresia nos deixa em êxtase.

Entramos no mar... Ah o mar! Por que és tão maravilhoso, seu gosto salgado nos deixa sempre mais leve, tranqüilo. Ficamos lá como se fosse somente nos e o mar e nada mais no mundo. Acima de nós, só a lua e o céu estrelado. “- A alegria era uma fatalidade”

O amanhecer bate a porta, o céu começa a se arroxear levemente. A cada minuto o tom avermelhado se misturava mais e mais com o roxo. E logo a lua se despede, e no lugar dela vem o Sol, aquecer levemente nossa pele, nos dando um leve arrepio.

Ficamos até a manhã se fazer completa. Completei meu devaneio.

Somos nós, eu ele o mar e um infinito de sentimentos

quarta-feira, 21 de março de 2012

Café

Todo o dia antes do despertar do relógio já sabe a hora de levantar pelo aroma. Ah! O aroma de café pela manhã, não há, talvez, perfume mais delicioso.

Quando finalmente me levanto, tomo meu banho, vou o mais rápido possível para a cozinha tomar meu café da manhã. Lá minha mãe, fazendo seu famoso café, digo famoso porque não há quem tome e queira repetir a dose.

Despejo o ouro negro na xícara, cheiro-o lentamente, deixo aquele aroma me tomar fazendo com que eu entre em um estado de êxtase, pego uma colher e mexo lentamente dando-lhe a dosagem certa de açúcar, fico nessa, praticamente flertando com a bebida antes de prová-la.

Finalmente encosto em meus lábios a xícara quente, assopro lentamente como quem quase beija um grande amor, e tomo o líquido. Delicio-me com aquele sabor como se tomasse o mais caro dos vinhos.

Esta bebida que é um pouco amargo e um pouco doce, como a minha vida, e ao mesmo tempo ele nos conforta, como um abraço quente e saboroso.

Enquanto a manhã vai passando repito a cena algumas vezes, mas garanto que a cada vez que repito a cena sinto igual sensação.

O dia finalmente toma seu rumo, os compromissos batem a porta, tenho que correr, mas antes mais um cafezinho.

 (CCCG)

domingo, 18 de março de 2012

O Grito

É estranho tentar escrever coisas tão belas, quando sua realidade não mostra coisas tão belas assim.

Muitas vezes trancada em meu quarto posso sentir  que realmente é solidão. Não há meios tecnológicos que tire de mim essa sensação.

Meus dias se passam e eu continuo pisando em ovos, como uma pedra que me prende no fundo do lago.

Eu não consigo sair, não consigo fugir então me tranco em mim.

Nada se realiza como quero, os otimistas dizem que isso faz com que demos mais valor, pra mim é apenas dificuldade mesmo. Se fosse assim por que tem tanta gente que tanto sem batalhar nada e as coisas continuam tendo o mesmo sabor.

Meus dias passam, eu envelheço, envelheço ainda mais rápido que o natural. A vida me caleja, deixa marcas que talvez nunca cicatrizem, dores que nunca acabam, lembranças que nunca serão esquecidas, magoas que nunca passarão.

E eu apenas empurro, aceito, engulo, deixo passar e cada dia que passa esse sufoco se torna maior, meu peito se aperta mais, o grito chega mais perto da garganta. Me seguro, não posso deixar com que meus sentimentos apareçam.
E continuo trancada dentro de mim.

quarta-feira, 14 de março de 2012

O Sono


Sinceramente nunca senti em mim à vontade de ter um filho, nunca fui de me apegar à criança nenhuma, muito embora sabia que, quem sabe um dia, teria que pensar sobre o assunto. Até que este dia finalmente chegou, muito antes do que eu imaginava.

Era um sábado ensolarado como tantos outros, toda minha família iria trabalhar e alguém precisava cuidar da minha sobrinha, atendi ao pedido de minha mãe e fiquei com ela.

Sinceramente foi um dia cansativo, corria de um lado pro outro atrás daquela coisinha, nunca imaginei a quantidade de fraudas que uma criança usava em um dia (são muitas).

Depois de muito correr atrás da pequena percebi que ela já estava sonolenta, cansada e numa iniciativa quase que instintiva tomei-a em meu colo, ela se acomodou e fixou os olhos em mim, não sei o que aconteceu comigo, mas quando dei por mim já estava cantarolando baixinho, sinceramente não entendi o por que, mas senti essa vontade.

O tempo passou e ela, finalmente, caiu no sono, foi a minha vez de fixar os olhos naquele pequeno ser, não conseguia parar de olhar. Seu sono era profundo e tranqüilo, como um anjo que adormeceu em um travesseiro feito de nuvens. Deliciei cada momento daquele sono acariciando cuidadosamente seus cabelos, com todo cuidado para não incomodá-la, como se no mundo não existisse mais ninguém além de nós.

Horas e passaram e eu ali admirando aquele pequeno ser, pensando em como ela seria quando crescesse? O que ela iria querer estudar? Qual seria sua profissão... Aquilo começou a me preocupar, e se desse tudo errado?  Se ela sofresse? E se não alcançasse seus sonhos?

Quando percebi, estava pensando como se ela fosse minha filha...-E se fosse?

De repente ela acorda, então pensei “poxa que pena, durou tão pouco”. Fiquei ali ansiosa esperando o próximo sono.